Meu perfil BRASIL, Sudeste, LIMEIRA, JARDIM NOVA ITALIA, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Livros, Arte e cultura, cristianokock@uol.com.br MSN - cristianokock@hotmail.com
O poeta Valmir Jordão sempre surpreende. De repente, ele pode aparecer com a cabeça rapada, de chapéu e óculos escuros e não será bem uma nova performance. Será um novo personagem, um heterônimo vivo, porque não quer ser um poeta morto. E mostrará, como explicação, seis marcas de bala no corpo, nada fictícias. Lembranças de um antigo atentado, de sua luta pela cidadania. Em outra oportunidade, chegará zen, calmo, ser surgido na fumaça do Recife. Em uma terceira oportunidade estará deprimido, amargo. E a causa da tristeza não será bem filosófica, mas a nada poética razão de não ter onde morar. Que não assobia como um samba de Caymmi.
Onde mora? Como vive? Não lhe façam perguntas assim, objetivas, necessárias, porque ele responderá, de passagem e de raspão, que mora aqui, ali, mas que no momento está de volta à casa de sua mãe, no grande Recife, lá em Jaboatão. O bom filho, quando pronto, retorna. Mas do quê mesmo o poeta vive? Valmir bem sabe o absurdo que é responder, “vivo de poesia”. Por isso, quando cercado, responde:
– Faço oficinas de literatura, como agora.
– Mas você não tem isso os 12 meses do ano. Nem tem décimo terceiro, nem férias.
– Não, não. Eu sou muito cigarra, mas tenho um lado formiga também. Eu guardo um pouquinho. Canto, e deposito uma parte desse canto, um terço. E me mantenho com o restante.
Há quem o chame de poeta marginal. Mas este homem, que olho agora, é autor de um poema que hoje corre mundo, tão antológico que virou quase domínio público, “Coca para os ricos / Cola para os pobres / Coca-Cola é isso aí”. E autor, também, além dos magníficos versos lá em cima, que tão eloqüente falam do seu modo de ser e estar, de poemas que falam não dos marginalizados, mas como um próprio marginalizado, de consciência poética. Como este aqui, por exemplo:
AH, RECIFE
Dizem os bardos que uma cidade
é feita
de homens,
com várias mãos
e
o sentimento do mundo.
Assim Recife nasceu no cais
de um azul marinho e celestial,
onde suas artérias evocam:
Aurora, Saudade, Concórdia,
Soledade,
União, Prazeres, Alegria e Glória.
Mas nos deixa no chão,
atolados na lama
de sua indiferença aluviônica:
a ver navios com suas hordas
invasoras
e o Atlântico
como possibilidade
de saída...
“Esse tipo de poesia a geração de 1965 não fazia”, esclarece Lara, um poeta e crítico do grupo. “Porque a gente ligou para o visceral, e o engajado da esquerda, mas não com panfletarismo, não calcado na ortodoxia marxista. A gente se propunha a ir além da ortodoxia marxista. Tinha anarquista, tinha ...esse lado visceral muito forte, de expor as tripas da realidade concreta, de fazer o combate ideológico, anticapitalista”.
Pode-se dizer que Valmir Jordão vem de uma geração de poetas urbanos, radicais no seu fazer poético, que fazem da poesia morte, vida e profissão. Mas sem idéias orgânicas de um movimento. Características comuns de vida têm, é certo. A maioria é de origem pobre, todos autodidatas. (Mas afinal em que escola os escritores no mundo se formam?) São, por baixo, mais de 50 poetas, que se apresentam em palcos, em shows, em recitais. Os seus poemas estão em edições pequenas, de tiragens pequenas, de circulação pequena, de preço pequeno. Diferente dos grandes, eles são todos filhos de má família, um eufemismo que apenas quer dizer, como Valmir disse em MATER: “Não culpe as putas / pelo comportamento / nefasto dos filhos”. Chega a ser de uma grande brutalidade essa poética.
Em 2007, no intervalo de poucos meses faleceram dois poetas-símbolo do grupo, Chico Espinhara e Erickson Luna. O intervalo dos seus óbitos foi curto e eloqüente. Chico, em fevereiro de 2007, Erickson em abril de 2007. Dois meses entre um e outro. De males diferentes, mas de gênese única. Ambos poetas cujo estilo de vida, de aparência romântica, foi antes uma autodestruição pelo álcool e por outras drogas que não atingiram o veneno da legalidade. No começo de outubro do mesmo ano, faleceu o terceiro, o poeta França.
Acontecimentos assim não abalam, no sentido de que venha a desistir da poesia, o poeta Valmir Jordão. Pelo contrário, o que mais me surpreende, desta vez, é a crença absoluta que ele possui nos frutos e destino da literatura. Apesar de todas as adversidades. Como aqui, neste trecho:
“Eu não faço livro só pra vender. É o seguinte: a literatura pra mim é um caminho. Não é um fim de ganhar dinheiro, sabe? Nem meio de ganhar dinheiro. Pra mim ela é um instrumento de trabalho, que eu adoro fazer, que eu amo fazer. Agora, essa história do toma lá, dá cá, existe, sim, porque você recebe muito carinho, muita gentileza, e um livro não paga uma gentileza. Nem há dinheiro que pague uma gentileza, entendeu?”.
Que força penitente é essa? Entendam melhor o que isso significa: escrever poemas em caderno, à mão, porque não tem micro, ainda que alegue ser melhor assim, porque sua memória é táctil. Depois, copiá-los em um CD, em uma Lan House, para levar a uma gráfica. E finalmente vendê-los ao mundo na própria voz e na página impressa. Uma poesia, enfim, que vem ao mundo nas piores condições materiais, ou como ele diz, “materialmente, nada próprio”.
O poeta agora tem 47 anos. Apesar da estatura, um pouco abaixo da média, apesar da falta de armas físicas, é um homem de absoluta coragem artística. Quem o vê assim, não imagina uma conversa que teve com um criminoso. Ele havia emprestado 50 reais ao delinqüente, e ao cobrar o pagamento da dívida, recebeu a resposta:
– Não enche o saco, cara !
Ao que ele, Valmir Jordão, esse homenzinho convicto da sua singular diferença, respondeu:
– Escuta aqui. Tu estás pensando que só porque tu és bandido, eu tenho medo, é? Eu sou artista, cara. Eu sou poeta, cara, tás entendendo?
No enterro de França, enquanto outros choravam, Valmir se acercou do caixão e, de frente para o poeta negro, fez um recital. Somente para França. Em voz alta, como se conversasse na melhor língua que sabe fazer, poesia. Um monólogo cuja força era um diálogo, possível, impossível, real e imaginário. Ali o poeta falou para França da radical opção de suas vidas, na certeza de que razões de viver também são razões de morrer.
Um homem assim tem que ser respeitado. É uma luz, ainda que se apresente sem grana, sem dinheiro às vezes nem para o ônibus. Mesmo que tenhamos medo do que venha a falar de nossa pessoa, quando dele nos separarmos:
Página inicial do UOL, fiquei curioso para saber o que Preta Gil pensa sobre a Mulher Melancia.
Clique e, de repente, um blog cheio de fotografias. Putz, que blablablá mais xarope...
Pior mesmo foi constatar que a filha do ex-Ministro da Cultura comete erros crassos de português. No texto de abertura tem de tudo: crase antes de pronome masculino, verbo haver sem agá e outras bizarrices.
Não seria nada de mais se ela não fosse tão metida a iluminista.
Gostaria de ver alguma coisa dar certo de verdade. Não que eu me ache um fracassado. Mas estou tentando ver algo além daquilo que se propõe como único caminho viável para a felicidade.
Então, penso.
Me olho no espelho.
Gordo, careca, envelhecido.
Solteiro, beberrão, pobre, pretensioso.
Nem de longe eu esperava isso.
E, no entanto, preciso aceitar que não consegui nada do que planejei na adolescência. Eu havia programado ser um cristão sincero, escritor respeitado, famoso, rico, capaz de presentear meus pais com uma casa e um carro na garagem.
Mas eu não nasci pra ser Silvio Santos ou Roberto Marinho.
Nem para ser Rubem Fonseca.
Nasci pra ser um marginal do mais baixo gabarito.
Um repórter medíocre, apenas esforçado.
Um arremedo de Heródoto Barbeiro.
Não me sinto, porém, infeliz.
Sinto só uma vontade danada de pensar, pensar, pensar...
Cabeça baixa, cordato, silencioso? Quaquaraquaquá! Nem ferrando. O soco do adversário, às vezes, vem abaixo da linha da cintura. Sempre há alguém na platéia que berra como gralha:
_ Se fodeu!
Mas ninguém se fodeu. Ninguém.
Recuperado, levanto-me. O suor frio queima a fronte. É hora de contra-atacar. Lembro-me daquele som do Planet Hemp: “querem me calar, mas olha eu aqui de novo...” e sigo tranqüilo. Ensaio um jogo de pernas no ringue. Ainda há muito o que se lutar. Cada gesto, cada olhar, cada palavra tem um sentido. E preciso estar com a mente leve, mas atento.
RATATATATATÁ!
mInhA metranca giratória é a mesma azeitada desde a infância selvagem entre os aimorés.
Sigo tranqüilo com Jah. Eu e minha família.
Gostaria de agradecer a todos os trabalhadores honestos deste país, que não se envergonham de viver com pouco, mas gozam plenamente as delícias da amizade e da consciência em paz.
Sou inspirado pelo povo. Eu sou o zé-ninguém.
Sinto-me no dever de avisar que no futebol de botão, sou o melhor.
Eu vi Romário jogar.
Comi a goiaba da vizinha.
RATATATÁ! O metrô vai passar...
Beijão a todos, uhuuuuu!
Água mole em pedra dura, no meu pau ninguém segura!
A natureza humana tem lá suas manias, mas não se pode culpar a índole por todos os males que assolam a sociedade. Pessoas desarrazoadas, por mais simpáticas que sejam, também disseminam a mentira e a violência.
Se meu ex-colega de faculdade Santiago Lourenço tivesse usado a razão para criticar um artigo puramente analítico que escrevi, teria se saído melhor.
Santiago Lourenço é apresentador do Programa do Povo, veiculado pela TV Mix, cujo proprietário é o candidato a prefeito de Limeira Lusenrique Quintal.
Disseram-me, ontem, que o camarada Santiago ficou enfurecido com o artigo “A TV de Limeira”, publicado domingo pelo Jornal de Limeira no suplemento Jornal da TV, e partiu para a ofensa pessoal.
Entre outras coisas, ele teria dito que sou “cachaceiro” e que vivia pedindo dinheiro pra comprar lanche na faculdade porque era um pobretão.
Lamento que Santiago tenha enveredado pelo caminho da ofensa. Gosto muito dele, é um bom companheiro de copo e sempre teve um conversa agradável, descontraída.
O tom extremamente crítico talvez não conseguido despertar Santiago para o real objetivo do artigo: a autocrítica, tanto do telespectador como do apresentador. Nesse sentido, posso dizer que atirei pérolas aos porcos, a exemplo do que está escrito no versículo 6 do capítulo 7 do Evangelho de São Mateus.
Apesar da analogia cristã, não arrogo o direito de me fazer arauto da linguagem jornalística – mesmo acreditando que qualquer pessoa pode exercer sua capacidade crítica como bem lhe aprouver e como permitirem seus horizontes – simplesmente porque também sou bastante falho e aprecio muito mais modelos alternativos de divulgar informações - como livros, gibis, cinema e música – do que o estático hard news.
Enfim, nada de novo sob o sol.
Santiago quis dizer que exagero na bebida e, por isso, não sou digno de credibilidade. Devo confessar que também tenho minhas dúvidas. Conflitos espirituais, por assim dizer. Quem não os tem? Somente os desprovidos da matéria-prima para a reflexão: o pensamento.
Quanto ao meu gosto pela cachaça, não acho que isso chegue a ser novidade pra muita gente. Nem que seja assim, tão desabonador. Bêbado, escrevo e falo com muito mais propriedade que muito apresentador de TV.
Bom, mas não façamos disso um cabo-de-guerra, como recentemente presenciamos entre funcionários das duas televisões de Limeira.
Não vale a pena.
Melhor só esclarecer, até para Santiago Lourenço ter mais elementos para uma boa argumentação. Mordaz, de preferência, que aí o papo fica interessante.
Mas por que motivo eu forneceria projéteis para a arma que pretende me derrubar? Simples: para expiar minhas culpas. Eu já deveria ter escrito o artigo há muito tempo. Fui omisso. Por isso, um castigo de quem me detesta é bem-vindo.
Também quero testar minha capacidade de ser democrático e de manter a fleuma após receber uma saraivada de ofensas pessoais.
Então, esclareço. Na faculdade, é verdade, eu tinha pouco dinheiro. Mas tinha. A partir do segundo semestre de 1996, quando fui agraciado com um emprego no Jornal de Limeira.
Eu estava sem trabalho no primeiro semestre. No final, comuniquei a alguns amigos, entre eles o dr. Joaquim Nogueira da Cruz Neto, ex-secretário da Saúde, que deixaria a faculdade. Alguns dias depois, ele se ofereceu para pagar o que eu devia na Unimep. E eu aceitei, porque queria continuar estudando.
Sinto falta do dr. Joaquim. Quando ele morreu, o baque foi grande. Devo a ele minha fé no estudo e no trabalho, devo a ele a compreensão de fatos que só agora se tornaram claros para mim.
Santiago, que estudava na mesma classe que eu, esqueceu de dizer que fiz trabalhos de faculdade para o Geraldo Luis, apresentador da TV Record. Poderia reforçar a tese de que sou contraditório (ou oportunista), pois já critiquei o Balanço Geral também no suplemento de TV do Jornal de Limeira.
Alguns podem questionar por que raios faço críticas à programação de TV se não sou um dos chamados “especialistas”? Outra resposta simples: por que motivo eu haveria de me privar do direito de ter opinião se me sinto incluído na dinâmica social que atinge diretamente meus interesses e meus conceitos? Por que diabos eu deveria me sentir menos apto do que qualquer um, se defendo o intransigentemente o direito à liberdade de expressão sob quaisquer circunstâncias? Não haveria contradição maior do que adotar a política da boa vizinhança se acredito no poder do argumento e do debate, por mais dolorosos que sejam? Cercear o próprio pensamento também me parece uma covardia.
Pois bem, Santiago também poderia me criticar por ter me tornado um sedentário, situação execrada pela moralidade burguesa destes tempos de culto à boa forma física. Pode citar que sou gordo (inclusive abusar de adjetivos com alta carga pejorativa, como bolão, barrigudo, saco de banha, para não perder a linha de seu programa), careca e míope (oito graus, fundo de garrafa). Olha só, que vasto material para a depreciação total e irrestrita!
Gostaria de esclarecer que usei “a hora da pizza” apenas para exemplificar uma situação. E que citei o nome antigo “Hora do Povo”, para tornar mais claro meu raciocínio sobre as similaridades entre um programa e outro. Pelo jeito, não consegui.
Por fim, tenho a declarar para o leitor deste Blog Banzeiro, que de maneira nenhuma tenho nada pessoal contra qualquer pessoa da TV Mix. Muito pelo contrário. Tenho lá amigos do mais alto gabarito intelectual e profissional. Como o jornalista Alessandro Rios, por exemplo. Um apresentador sério, de credibilidade inegável e capacidade de discernimento indiscutível.
Santiago poderia aproveitar a presença de um profissional de alto nível como Alessandro e pedir alguns conselhos. Mas aí é uma questão de foro íntimo e prefiro não emitir opinião sobre isso.
Minha opinião continua a mesma que foi publicada no suplemento Jornal da TV. Acho que o programa e o apresentador carecem de mais substância, mesmo que o velho bordão “popular” seja o mote para justificar matérias sobre brigas de pregadores evangélicos na praça.
Leitor do Banzeiro, saiba que minha fé no ser humano continua inabalável. Jamais deixarei de procurar aplicar na realidade o que meus pais me ensinaram ainda no berço: amor, respeito e alegria.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Carlos Drummond de Andrade)
Muitos poemas de Drummond funcionam como denúncia da opressão que marcou o período da Segunda Grande Guerra. A temática social, resultante de uma visão dolorosa e penetrante da realidade, predomina em Sentimento do mundo (1940) e A rosa do povo (1945), obras que não fogem a uma tendência observável em todo o mundo, na época: a literatura comprometida com a denúncia da ascensão do nazi-fascismo.
A consciência do tenso momento histórico produz a indagação filosófica sobre o sentido da vida, pergunta para a qual o poeta só encontra uma resposta pessimista.
O passado ressurge muitas vezes na poesia de Drummond e sempre como antítese para uma realidade presente. A terra natal - ltabira - transforma-se então no símbolo da atmosfera cultural e afetiva vivida pelo poeta. Nos primeiros livros, a ironia predominava na observação desse passado; mais tarde, o que vale são as impressões gravadas na memória. Transformar essas impressões em poemas significa reinterpretar o passado com novos olhos. O tom agora é afetuoso, não mais irônico.
Da análise de sua experiência individual, da convivência com outros homens e do momento histórico, resulta a constatação de que o ser humano luta sempre para sair do isolamento, da solidão. Neste contexto questiona-se a existência de Deus.
Hoje, se você disser que é comunista, será tratado como um débil mental.
Hoje, se você fugir do lugar-comum, será tachado de pretensioso.
Hoje, se você procurar dizer a verdade, será considerado um otário.
Hoje, se você atribuir a existência do ser humano ao acaso correrá o risco de ser execrado em praça pública.
Hoje, se você quiser ser aprovado como poeta, tem que escrever versos claros, objetivos e informativos. Hoje se criou a aberração chamada estrofe jornalística.
Hoje, se você discordar de alguém, tem que estar preparado para ser combatido pela vaidade ferida e não pelo poder dos argumentos.
Hoje, se você questionar o poder da mídia, ganhará o status de censor.
Hoje, se você quiser reunir pessoas para realizar um protesto, trate de buscar patrocínio.
Hoje é um dia tenebroso. Cinza, com ruídos semelhantes a conversas se arrastando nos becos, músicas que não podem ser ouvidas em todos os lugares.
Achei bastante interessante a matéria que o Jornal de Limeira publicou hoje sobre o transporte coletivo da cidade.
Fiquei estimulado a relatar minha experiência, não como usuário de apenas um dia, mas de segunda a sábado e, às vezes, também no domingo.
Nunca tive carro, por isso vou de um lugar a outro de ônibus. Nos 15 anos que moro em Limeira, percorri praticamente todos os bairros. Para ir a casa de amigos e parentes, namorar, trabalhar, estudar, fazer compras, passear, ir a hospitais, visitar lugares.
Para resumir a história, digo com a certeza de quem já passou os mais absurdos episódios dentro de um ônibus de linha – da Viação Limeirense ou da Rápido Sudeste – O TRANSPORTE COLETIVO DE LIMEIRA É UMA LÁSTIMA!
O povo é tratado como gado, os horários são confusos, os itinerários pouco eficientes, a tarifa é cara.
E os ônibus? Terríveis. Em sua maioria, os veículos são verdadeiras banheiras. Desconfortáveis, fedorentos, ultrapassados, cheios de problemas mecânicos.
Nos ônibus com assentos de plástico, o risco de quebrar o quadril é grande. Isso porque muitos motoristas passam pelas lombadas como se estivessem no Rali dos Sertões. Se o banco é aquele mais engraçadinho, com encosto gigante e assento macio, você corre o risco de escorregar pra fora do ônibus. E ainda tem os bancos com braço que, pra barrigudos como eu, tornam-se apenas objeto de desejo.
Já viajei das proximidades do Shopping Fantasma até o Centro com passagem pelo Santa Eulália. Peguei um carro da Rápido Sudeste. Tremia e guinchava tanto que deu a impressão que se desmancharia no meio da rua.
Normalmente, para ir trabalhar no Jornal de Limeira, tomo ônibus na frente do Supermercado Covabra. Aprendi a chegar meia hora antes dos horários supostamente pré-determinados. Para voltar é pior ainda. Um dia tem 15 minutos de atraso, no outro 20 e, às vezes, até 40. Se chover, a situação é totalmente imprevisível.
No itinerário do Linha 6, que liga o Nossa Senhora das Dores ao Jardim Novo Horizonte (e isso é realmente uma viagem, meu amigo), já vi coisas do arco da velha, como diria aquele senhor que aprendeu a observar em silêncio as desgraças cotidianas. Certa feita, o ônibus verde e branco da Limeirense simplesmente quebrou três vezes. Um dos motoristas, que dada a convivência diária, já se tornou meu amigo, argumentou em tom de súplica:
_ Essa linha tem só tem carro péssimo. E pra piorar, neste caso, não colocaram água suficiente. O motor estava prestes a fundir. Viu a fumaceira? Então.
_ É complicado, mesmo. Tô ligado – conforteio-o.
Não meu amigo, eu não relataria o caso nas páginas do Jornal de Limeira. Até porque já havia feito isso sobre outro assunto: a demência temporária dos motoristas.
Aconteceu quando peguei o busão no ponto da Praça Valdir Salviatti, no Jardim Nova Itália. Eu iria até o centro da cidade. Na verdade, todos nós, passageiros com síndrome de massa de manobra, conseguimos chegar. Vivos, não sei como. Talvez por milagre.
No meio do caminho, um motoboy cortou a frente do ônibus e foi perseguido pelo motorista da minhoca de metal. Deu a maior confusão. O motorista do ônibus parou o veículo duas vezes. Na primeira, só xingou. Na segunda, desceu do ônibus e partiu pra cima do motoboy. Foi contido por guardas municipais.
Em geral, os motoristas são legais. Tornam-se praticamente uma pessoa da família. Você vê os caras todos os dias, eles o levam até onde você quer, às vezes falta uma moeda e deixam compensar no outro dia, e por aí vai. Vida de pobre. Tem que ter traquejo.
MAS O TRANSPORTE COLETIVO DE LIMEIRA É UMA LÁSTIMA!
Detona o motorista e tortura o passageiro.
Experimente tomar certos ônibus na Praça do Museu. Nem precisa ser nos horários de pico. Dá impressão de ser uma grande suruba confinada numa lata de sardinha. O Linha 11B da Limeirense, por exemplo, além de demorado pra cacete – só passa a cada 40 minutos – geralmente vai lotado para os lados do Jardim do Lago. Quando estou no centro e vou para o Jornal de Limeira, eu pego essa degraça de rodas.
E pra esperar a minhocona doida? Já viu os pontos? Na Praça do Museu, dependendo do lado, você tem a impressão que caiu uma bomba no local. Bancos detonados, calçadas esburacadas e cobertura inútil, que não protege nada. Quem será que foi o gênio que projetou toda essa mercadoria?
Após tantos anos chacoalhando dentro destes monstros barulhentos, desconfortáveis e lentos como a mente de nossos políticos, cheguei à conclusão que não quero mais sofrer.
Mesmo odiando dirigir – principalmente porque tenho dificuldades de concentração – estou providenciando uma carteira de habilitação. Logo, estarei com um veículo nas mãos. Mesmo que seja um fusca 68 detonado. Qualquer coisa é melhor do que essa LÁSTIMA DE TRANSPORTE COLETIVO DE LIMEIRA!
Parece até praga.
Nego fatura alto e a cidade tem esse monte de ferro-velho circulando de uma ponta à outra.
Mas nem sempre é assim. Pegue um busão na Avenida Campinas com intenção de ir até o Centro. Vai demorar. Só que virá uma máquina legal. Com bancos macios e motor que não solta fumaça nem grita feito um porco sendo capado.
É pra galerinha mais chique, talvez. Estudantes, gente que trabalha no centro, profissionais liberais, jornalistas...
Quando eu tiver paciência e tempo, vou relatar as histórias que colhi durante os milhares de trajetos que já fiz dentro de um ônibus. Tem coisa de arrepiar o cabelo.
Por enquanto, quero só dizer que o TRANSPORTE COLETIVO DE LIMEIRA É UMA LÁSTIMA! E a tarifa é R$ 2. Pode um negócio desses? E tem gente que acha normal...
Plinío Marcos: remédio para o formalismo carcomido
_ Papai, descobri minha vocação. Vou ser poeta.
O pai tem um chilique e convoca os outros diabos da redondezas. É claro que eles não vêm de chifre, rabo, pé de cabra e cheirando a enxofre. Vêm com cara de mãe, avô, professor, sacerdote, médico, psicólogo. Um inferno. Tentam incutir o pavor do futuro no garoto.
_ Poeta morre de fome.
_ Poeta se fode. Só se fode.
_ Poeta é bicha.
Este é um trecho de um livro do dramaturgo Plínio Marcos chamado Prisioneiro de Uma Canção.
O livro é uma espécie de desabafo lírico sobre as distorções da concepção de sociedade dita democrática. Foi escrito na década de 70 em formato tosco. Pelo menos, o exemplar que eu tenho é desse jeito.
Se alguém quiser, está ferrado. É difícil achar. Eu procurei em diversos sebos. E encontrei por obra e graça de Nosso Senhor.
A busca pelo pão de cada dia e os conflitos espirituais deflagrados a partir de uma reflexão sobre o que é verdadeiro nas relações humanas em tempos de liberdade vigiada é ponto de partida para a descrição de várias situações reais e chocantes.
Um vômito.
Um vômito poético, cheio de sensibilidade e esforço para compreensão das fraquezas humanas. Ainda bem, a refutação do determinismo sem apelar para dogmas fáceis de teorias aparentemente desprovidas de contradição.
Desculpem-me, não posso ir além disso nesta resenha porque estou me transformando num vaso grego.
Guitarrista do Queen conclui doutorado em astronomia
O guitarrista do Queen, Brian Harold May, concluiu seu doutorado em astronomia com uma tese sobre a luz zodiacal, já publicada em livro. May havia interrompido os estudos nos anos 70 para se dedicar ao rock, mas retomou a tese desenvolvida no Observatório do Teide e Izana, na ilha de Tenerife, nas ilhas Canárias. "É extremamente gratificante ver a minha tese publicada", disse o britânico Brian May.
A luz zodiacal, tema de seu estudo, é uma fraca luminosidade visível no céu ocidental. O melhor período para observá-la é na primavera, depois que as luzes do pôr do sol desapareceram completamente. Trata-se do reflexo da luz solar nas partículas de pó presentes no plano do sistema solar. "Estou feliz por ter passado a minha vida tocando com o Queen, mas é extremamente gratificante ver a minha tese publicada", declarou May.
A tese "Estudo sobre as velocidades radiais do pó zodiacal" foi concluída no ano passado e se baseia na documentação recolhida pelo músico sobre a luz zodiacal nos anos 1971-72, no observatório de Tenerife.
O velho Jaguar percorre as ruas desertas do centro encardido. Passa serpenteando lentamente por placas de publicidade e pinturas comerciais. Hannah manobra o volante com a mão direita e segura uma latinha de Skol com a esquerda. Vai deslizando pernosticamente no asfalto mole a 40 Km/h. Tem os olhos semicerrados e os cabelos louros colados à testa. O rádio toca um velho rock, o rádio também velho. Talvez seja folk a música que ela ouve com uma espécie de pseudonostalgia. Possivelmente lembranças de um passado milenar.
Nada aqui, nada ali.
Um homem de cabeça prateada e barriga bastante saliente caminha ajeitando os óculos escuros na calçada que o convida a tropeçar. Encara Hannah por um segundo depois foge lépido como um coelho assustado.
Deus está roncando.
O diabo saiu para comprar cigarros.
Hannah atira a lata vazia. O meio-fio parece o limite de uma vida.
O sol não diz nada nem as árvores.
O Jaguar roda comprimindo pedriscos que escapam da pressão da borracha quando os pneus mudam de direção. O dia está embaçado, o vapor que sobe do asfalto imprime garatujas no rosto macilento do ar.
Hannah pára pra comprar cerveja num bar. Dois sujeitos numa mesa a medem dos pés à cabeça. Um franze a sobrancelha e faz qualquer comentário com o companheiro de copo. O tênis de Hannah silva no soalho do boteco. Ela coloca o dinheiro amassado sobre o balcão e vira as costas para o sorriso irônico do balconista. Enxuga a mão na camisa branca e está abrindo a porta do carro quando ouve um assobio.
_ Ô moça! Não quer conversar um pouco com a gente? Ninguém tem nada pra fazer mesmo...
É um dos caras sentados à mesa de plástico amarelo.
_ Não, obrigado - diz secamente.
Hannah entra no Jaguar e vai embora. Não sabe para onde.